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Árvores, por António Ramos Rosa


O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhasn são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve integridade.
Sob o mágico sopro da luz são os barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota de seus ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

António Ramos Rosa. Animal Olhar, Árvores, p. 84.

Cada árvore é um ser para ser em nós, por António Ramos Rosa

Cada árvore é um ser para nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a ávore apaziga-nos com sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses.


Do livro, Cada árvore é um ser para ser em nós.